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TERÇA - FEIRA 26/05/2026
Notícias/Cotidiano

“Farmar aura”: a obsessão por parecer descolado nas redes acende alerta entre jovens

Gíria viral não é uma doença mental, mas a busca constante por aprovação, popularidade e aparência de superioridade pode revelar insegurança, dependência das redes sociais e sofrimento emocional

“Farmar aura”: a obsessão por parecer descolado nas redes acende alerta entre jovens
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Uma nova expressão tomou conta das redes sociais, das escolas e das conversas entre adolescentes: “farmar aura”. O termo é usado para descrever atitudes feitas com o objetivo de acumular prestígio, carisma, respeito ou uma imagem de pessoa “descolada” diante dos outros.

Na prática, o jovem estaria “farmando aura” quando adota uma pose calculada, publica um vídeo estrategicamente produzido, realiza alguma ação considerada impressionante ou tenta demonstrar frieza e autoconfiança para conquistar admiração.

Apesar de algumas publicações tratarem o fenômeno como uma suposta “nova doença mental”, é fundamental esclarecer: “farmar aura” não é diagnóstico médico, transtorno psicológico ou doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde.

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A expressão pertence ao universo das gírias digitais. Entretanto, o comportamento exagerado que pode existir por trás dela merece atenção.

O que significa “farmar aura”?

A palavra “farmar” vem principalmente do universo dos jogos eletrônicos. Nos games, significa repetir ações para acumular pontos, moedas, experiência ou outros recursos.

Já a palavra “aura”, nesse contexto, representa uma espécie de pontuação imaginária relacionada a carisma, confiança, presença, estilo e popularidade.

Assim, “farmar aura” significa fazer algo para conquistar reconhecimento social. O jovem que demonstra coragem, aparece bem em um vídeo ou realiza uma ação considerada elegante pode ganhar “pontos de aura”. Quem passa vergonha, força uma situação ou tenta chamar atenção de maneira exagerada pode “perder aura”.

A expressão ganhou força na cultura digital a partir de 2024 e passou a circular intensamente em vídeos, memes e comentários nas redes sociais.

Não é doença, mas pode esconder um problema real

Usar a expressão entre amigos, participar de uma brincadeira ou publicar um vídeo não significa que o jovem esteja enfrentando algum transtorno.

O problema começa quando a necessidade de “parecer interessante” deixa de ser diversão e passa a controlar a rotina, a autoestima e as decisões do adolescente.

A busca constante por aprovação pode fazer com que alguns jovens:

  • construam uma personalidade artificial para as redes;
  • sintam medo excessivo de parecer fracos ou comuns;
  • realizem desafios perigosos para chamar atenção;
  • comparem permanentemente a própria vida com a de influenciadores;
  • associem o próprio valor ao número de curtidas e visualizações;
  • sofram quando uma publicação não recebe a repercussão esperada;
  • escondam tristeza, ansiedade ou insegurança atrás de uma imagem de superioridade.

Adolescentes ainda estão desenvolvendo capacidades de autorregulação e podem ser especialmente sensíveis às recompensas sociais oferecidas pelas plataformas, como curtidas, comentários e visualizações.

Nesse cenário, o chamado “farmar aura” pode funcionar como uma caricatura da atual disputa por atenção: todos precisam parecer confiantes, engraçados, bonitos, bem-sucedidos ou emocionalmente inabaláveis.

A geração que precisa transformar tudo em espetáculo

Antes das redes sociais, muitos comportamentos juvenis permaneciam restritos à escola, ao bairro ou ao grupo de amigos. Agora, uma atitude pode ser filmada, editada e publicada para milhares de pessoas em poucos minutos.

O adolescente não precisa apenas viver uma experiência. Ele pode sentir que precisa registrar, encenar e provar publicamente que viveu.

Uma saída com amigos vira conteúdo. Uma conquista vira publicação. Um gesto de solidariedade pode ser filmado. Até momentos de tristeza podem ser transformados em vídeos calculados para gerar engajamento.

A polêmica não está na gíria, mas na lógica que ela revela: em determinados ambientes digitais, parecer importante pode ter mais valor do que desenvolver relações verdadeiras, competências, responsabilidade e autoestima.

Redes sociais não são as únicas culpadas

Seria errado afirmar que toda utilização das redes sociais provoca problemas emocionais. As plataformas também permitem comunicação, criatividade, aprendizado, apoio social e acesso a informações.

O impacto depende de fatores como tempo de uso, conteúdo consumido, vulnerabilidade individual, ambiente familiar, experiências escolares e qualidade das relações fora da internet.

A Organização Mundial da Saúde destaca que a relação entre tecnologia e saúde mental é complexa e bidirecional. O uso digital pode agravar dificuldades emocionais, enquanto pessoas que já estão em sofrimento também podem procurar ainda mais as plataformas.

Dados divulgados pela OMS apontaram que 11% dos adolescentes pesquisados apresentavam sinais de comportamento problemático relacionado às redes sociais, incluindo dificuldade para controlar o uso e consequências negativas na vida cotidiana. Entre as meninas, o índice chegou a 13%, enquanto entre os meninos ficou em 9%.

Esses números não provam que “farmar aura” seja uma doença. Eles mostram que a relação de parte dos adolescentes com as plataformas digitais exige atenção.

Quando a brincadeira vira sinal de alerta?

Pais e responsáveis não devem entrar em pânico ao ouvir uma nova gíria. Proibir imediatamente o celular ou ridicularizar a linguagem dos adolescentes pode afastar o diálogo.

O mais importante é observar mudanças persistentes de comportamento.

Alguns sinais que merecem atenção são:

  • abandono de atividades anteriormente valorizadas;
  • queda significativa no rendimento escolar;
  • irritação extrema ao ficar sem celular;
  • alterações importantes no sono;
  • isolamento da família e dos amigos;
  • crises de ansiedade relacionadas a comentários ou publicações;
  • exposição excessiva da intimidade;
  • participação em desafios perigosos;
  • humilhação de outras pessoas para ganhar visualizações;
  • tristeza intensa após críticas ou baixo engajamento;
  • falas frequentes de inutilidade, desesperança ou desejo de desaparecer.

Nenhum desses sinais, isoladamente, confirma uma doença. A avaliação deve ser feita por profissionais habilitados, especialmente quando o comportamento provoca sofrimento ou prejuízo familiar, social e escolar.

O risco de transformar uma gíria em diagnóstico

Chamar “farmar aura” de doença mental pode parecer um título chamativo, mas também pode reforçar preconceitos contra pessoas que realmente enfrentam depressão, ansiedade, transtornos alimentares e outras condições clínicas.

Segundo a OMS, aproximadamente um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos vive com algum transtorno mental. Depressão, ansiedade e transtornos comportamentais estão entre as principais causas de adoecimento e incapacidade nessa faixa etária.

Transformar qualquer comportamento estranho ou moda juvenil em “doença” banaliza uma questão séria.

Também não se deve confundir o fenômeno com o transtorno por jogos eletrônicos. Essa condição está prevista na Classificação Internacional de Doenças, mas exige um padrão persistente de perda de controle, prioridade crescente dada aos jogos e prejuízo significativo na vida pessoal, familiar, escolar ou profissional.

Não existe classificação semelhante denominada “transtorno de farmar aura”.

O papel dos pais e das escolas

A melhor resposta ao fenômeno não é demonizar os jovens, mas compreender o ambiente em que eles estão crescendo.

Pais e responsáveis podem conversar sobre a diferença entre autoestima e aprovação digital, estabelecer períodos sem telas e estimular atividades presenciais, esportivas, culturais e familiares.

Também é importante ensinar que nem todo momento precisa ser registrado e que o valor de uma pessoa não pode ser medido por seguidores, curtidas ou comentários.

As escolas podem trabalhar educação midiática, respeito, cyberbullying, privacidade, exposição da imagem e funcionamento dos algoritmos.

O adolescente precisa entender que as plataformas são planejadas para prender a atenção e estimular novas interações. Isso não significa que ele seja fraco, mas que precisa aprender a utilizar essas ferramentas com consciência.

Onde procurar atendimento

Quando houver sofrimento emocional intenso, mudanças persistentes de comportamento ou prejuízo na vida cotidiana, a família pode procurar uma Unidade Básica de Saúde, profissionais de psicologia ou os serviços da Rede de Atenção Psicossocial do SUS.

Os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil, conhecidos como CAPS i, atendem crianças e adolescentes que enfrentam sofrimento psíquico intenso.

Adolescentes e jovens de 13 a 24 anos também podem buscar atendimento gratuito pela plataforma Pode Falar, conforme informação divulgada pelo Ministério da Saúde em julho de 2026.

Em situações de risco imediato, tentativa de suicídio ou ameaça à própria vida, deve-se procurar atendimento de emergência. O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, durante 24 horas por dia.

Mais do que uma gíria, um retrato da juventude digital

“Farmar aura” não é a nova doença mental dos jovens. É uma gíria que traduz, de forma bem-humorada, uma disputa antiga por reconhecimento, agora potencializada por câmeras, algoritmos e métricas públicas.

O alerta aparece quando o adolescente deixa de construir sua identidade para viver tentando impressionar uma plateia invisível.

Talvez a verdadeira discussão não seja quantos “pontos de aura” um jovem consegue acumular, mas quanto de sua autenticidade ele pode perder quando passa a acreditar que cada gesto precisa render aprovação.

FONTE/CRÉDITOS: REDAÇÃO

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