Pesquisadores brasileiros estão selecionando 8,5 mil voluntários para testar a primeira polipílula contra AVC e doenças cardiovasculares desenvolvida no país. A iniciativa, liderada pelo Hospital Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde via Proadi-SUS, acompanhará os participantes de três a quatro anos para comprovar a eficácia preventiva do medicamento.
A medicação combina três compostos em uma única cápsula: rosuvastatina (10 mg), para controle do colesterol, e os anti-hipertensivos valsartana (80 mg) e anlodipina (5 mg). A fórmula simplifica a rotina de tratamento ao permitir a ingestão conjunta das substâncias.
A primeira etapa de testes clínicos em humanos ocorreu entre 2020 e 2023, reunindo 370 participantes em Porto Alegre (RS) com resultados bem-sucedidos. O projeto é executado em colaboração com secretarias de saúde e unidades de atenção primária.
Segundo a neurologista Sheila Martins, chefe do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento e coordenadora do estudo, o objetivo é demonstrar a eficácia em pessoas de baixo e médio risco. Ela destaca que a adesão volumosa da população é fundamental para gerar evidências sólidas que fundamentem novas políticas públicas de saúde.
Testes em voluntários
A seleção abrange pessoas de 50 a 75 anos que nunca sofreram infarto ou acidente vascular cerebral e que não utilizem remédios para hipertensão, diabetes ou colesterol. O acompanhamento médico é gratuito e periódico.
A triagem é realizada em 14 centros especializados espalhados por São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Distrito Federal, Bahia, Pernambuco e Acre, com previsão de expansão para outras regiões.
Os participantes serão divididos aleatoriamente entre o grupo que receberá a substância ativa e o que tomará placebo. Durante o estudo, os cientistas observarão o impacto do tratamento na diminuição do risco de AVC, demência, perda de memória, infarto e mortalidade circulatória.
Interessados podem obter informações pelo telefone ou WhatsApp (51) 99935-6911. A pesquisa também disponibiliza o aplicativo Riscômetro, ferramenta que auxilia o paciente no monitoramento dos fatores de risco e no incentivo a hábitos saudáveis, como exercícios físicos e cessação do tabagismo.
Risco de AVC
O AVC figura como a principal causa de mortes no Brasil, registrando 89.490 óbitos no último ano, segundo o Registro Civil. A Organização Mundial do AVC projeta que as fatalidades globais podem saltar de 6,6 milhões em 2020 para 9,7 milhões em 2050.
Apesar dos números alarmantes, 90% dos casos podem ser evitados com o controle de fatores de risco, principalmente a hipertensão arterial. A médica alerta que a pressão máxima acima de 115 mmHg e mínima superior a 75 mmHg já eleva as chances de ocorrência da doença.
Prevenção
A pesquisa foca em indivíduos com pressão arterial máxima até 139 mmHg e mínima até 121 mmHg que possuam ao menos um fator modificável, como sedentarismo ou obesidade. Esse perfil representa cerca de 85% dos casos mundiais de AVC.
Nos testes preliminares, a dose reduzida do medicamento diminuiu a pressão sistólica em 12 mmHg e reduziu o colesterol em 40 mg/dL, demonstrando expressiva eficiência terapêutica.
Desafio e futuro no SUS
A coordenação do projeto, que conta com comitês técnico-científicos nacionais e internacionais, planeja disponibilizar a pílula no Sistema Único de Saúde (SUS) após a comprovação final de sua eficácia em larga escala.
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