A escola é, antes de qualquer coisa, um território do pensamento. É ali que se aprende gramática para nomear o mundo, história para compreender conflitos e matemática para desenvolver lógica e rigor.
Aprende-se ciência para questionar, filosofia para duvidar e literatura para imaginar outros futuros possíveis.
O que não se ensina na escola é submissão, silêncio ou reverência acrítica à autoridade.
Por isso causa perplexidade e um constrangimento difícil de disfarçar assistir aos recentes episódios ocorridos em São Paulo, sob o governo Tarcísio de Freitas, durante a defesa da implantação de escolas cívico-militares.
Policiais reformados, convidados a “explicar” o modelo, escreveram na lousa palavras grafadas de forma errada, tropeçando justamente no instrumento mais simbólico do ambiente escolar: a língua escrita.
A cena é quase alegórica. Enquanto se discursa sobre disciplina, ordem e hierarquia, a gramática aquela velha conhecida da escola pública pede socorro.
O erro ortográfico, em si, não é o problema central. Errar faz parte do processo educativo. O problema é o simbolismo: quem se propõe a ensinar precisa, no mínimo, compreender o que está ensinando e onde está pisando.
A pergunta que fica é inevitável: se o objetivo é melhorar a educação, por que deslocar o eixo pedagógico para quem não foi formado para educar?
Desde quando quartel substitui projeto pedagógico? Desde quando comando se confunde com ensino?
Educação não se constrói com fardas, mas com formação docente, valorização profissional, bibliotecas vivas, pensamento crítico e autonomia intelectual.
Escola não é espaço de adestramento, é espaço de emancipação. Não se forma cidadão mandando calar; forma-se cidadão ensinando a argumentar.
Transformar a escola em extensão de uma lógica militar é admitir, ainda que de forma disfarçada, que se desconfia do pensamento livre. É trocar o debate pelo apito, o diálogo pela ordem unidirecional, a pedagogia pela hierarquia. E isso, historicamente, nunca produziu sociedades mais justas apenas mais obedientes.
Se queremos alunos que escrevam certo, pensem melhor e compreendam o mundo em sua complexidade, o caminho é óbvio: mais escola, mais professores, mais educação.
Menos espetáculo, menos improviso e menos confusão entre autoridade e conhecimento.
Porque na lousa da democracia não cabem erros conceituais tão graves: educação é libertação, não submissão.
FONTE/CRÉDITOS: Alfroh Postai
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