O bolsonarismo chegou a um ponto-limite em que o extremo se confunde com o ridículo e a política cede lugar ao culto cego. O que antes se apresentava como “antissistema” hoje se revela refém de narrativas que ignoram fatos, decisões judiciais e a própria lógica democrática. A pergunta que ecoa nas ruas, nas redes e nas instituições é direta: até onde essa radicalização pode chegar — e quando seus seguidores vão despertar para a realidade?
Os episódios recentes expõem um paradoxo gritante. Uma tentativa de ruptura institucional foi amplamente investigada e reconhecida por órgãos do Estado, com responsabilidades individualizadas. Ainda assim, parte da militância insiste em defender pessoas presas não pelo que “pensam”, mas pelo que fizeram. É uma inversão perigosa: transforma-se crime em causa política e deslegitima-se a Justiça quando suas decisões não agradam. Se não estivessem lá, não estariam presos — esse fato simples segue sendo convenientemente ignorado.
O discurso de vitimização tornou-se estratégia. Prisões preventivas e condenações são tratadas como perseguição, enquanto provas, delações e decisões colegiadas são descartadas como “opinião”. O bolsonarismo doente opera por atalhos emocionais: substitui argumentos por slogans, instituições por inimigos imaginários, e a legalidade por teorias conspiratórias. O resultado é a corrosão da confiança pública e a normalização do ataque ao Estado de Direito.
Em Santa Catarina, o cenário amplia a contradição. Investigações e denúncias envolvendo agentes públicos — inclusive no alto escalão — e um histórico recente de prefeitos presos por crimes contra a administração reforçam que corrupção não tem ideologia. Ainda assim, a indignação seletiva persiste. Quando o alvo é adversário político, exige-se punição exemplar; quando envolve aliados, relativiza-se, silencia-se ou acusa-se complô. A ética vira acessório.
No plano nacional, o clã Bolsonaro vive sua própria guerra interna, com disputas públicas, acusações cruzadas e fissuras que desmontam o discurso de unidade moral. O “mito” perdeu o controle da narrativa, mas parte da base segue fiel, como se a realidade fosse um detalhe dispensável. O custo dessa negação é alto: empobrece o debate, paralisa soluções e empurra o país para ciclos de tensão estéril.
O jornalismo não pode se omitir diante desse quadro. Não se trata de preferências partidárias, mas de fatos, responsabilidades e consequências. Democracias maduras exigem respeito às regras do jogo, aceitação das decisões institucionais e disposição para revisar crenças diante das evidências. Defender ilegalidades por conveniência política não é resistência — é cumplicidade.
A hora de acordar é agora. O Brasil precisa de crítica, não de culto; de política pública, não de guerra cultural; de verdade, não de delírio. Enquanto a realidade seguir sendo negada, a vergonha continuará sendo coletiva — e o futuro, adiado.
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