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Sábado, 22 de Agosto 2026
Colunas/Geral

TODO PODER EMANA DO POVO. MAS PASSA POR BRASÍLIA.

Por que tratamos a eleição presidencial como se estivéssemos escolhendo quem terá o poder no Brasil?

TODO PODER EMANA DO POVO. MAS PASSA POR BRASÍLIA.
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Foi dada a largada para mais uma eleição presidencial no Brasil.

É a festa da democracia.

A democracia brasileira, como toda boa festa, tem convidados que não se suportam, gente que entrou sem ser chamada, gente que ninguém sabe quem convidou e alguns que passam a noite inteira perto da mesa dos salgadinhos (se é que você me entende).

Por enquanto, a grande discussão parece ser quem tem menos rejeição. Não necessariamente quem tem as melhores ideias. É uma diferença importante. Escolher presidente pelo menor índice de rejeição é mais ou menos como escolher restaurante perguntando em qual deles há menor probabilidade de passar mal.

Há, evidentemente, assuntos a discutir.

Mudanças climáticas. O que a inteligência artificial fará com milhões de empregos. O crime organizado e as facções que já controlam pedaços consideráveis do território nacional. O lugar do Brasil num mundo novamente dividido entre grandes potências. Uma reforma do Judiciário. Reforma política.

Assuntos menores [contém ironia].

O importante mesmo é saber quem apareceu numa festinha do Vorcaro.

Quando começar o horário eleitoral na televisão — há informações não confirmadas de que algumas pessoas ainda assistem televisão — certamente aparecerão vídeos, áudios, fotografias e revelações estarrecedoras. Descobriremos que um candidato esteve num jantar em 2017 com alguém que, em 2024, seria fotografado ao lado de uma pessoa que conhece um sujeito investigado pela Polícia Federal.

Gravíssimo.

Temos até candidato declarado inelegível participando da eleição, dando entrevistas e convidado para os debates. O que parece contraditório, mas apenas para quem ainda insiste em procurar lógica na política brasileira. Ele talvez não possa disputar votos, mas disputa atenção, o que atualmente é quase tão importante. E nisso ele (já) tem sido bastante eficiente.

É a "festa da democracia".

As aspas são minhas.

Porque existe um pequeno detalhe sobre a eleição presidencial brasileira que costumamos esquecer durante a eleição presidencial brasileira: o presidente não governa sozinho.

 Na verdade, dependendo das circunstâncias, o presidente mal consegue governar acompanhado.

Imagine, por exercício de fantasia, que elegemos um presidente bem-intencionado.

Eu sei. Tenha paciência! É apenas uma hipótese.

Suponhamos que ele não queira se perpetuar no poder, fundar uma dinastia, proteger amigos, perseguir inimigos ou preparar um filho, esposa, irmão, sobrinho ou papagaio para sucedê-lo.

Além disso, tem boas ideias. Ideias realmente boas. Projetos factíveis. Uma equipe competente. Apoio popular. Foi eleito por 60 milhões de brasileiros.

Parabéns.

Agora precisa falar com o deputado.

Porque existe uma diferença considerável entre ganhar a Presidência da República e governar a República.

Chamamos nosso sistema de presidencialismo de coalizão.

Explico:

O presidente apresenta seu projeto. A Câmara não gostou. Modifica. O Senado não gostou da modificação da Câmara. Modifica a modificação. O projeto volta. Alguém pede urgência. Outro pede vista. Um terceiro quer uma comissão. O presidente da Câmara não pautou. O presidente do Senado está pensando. O líder partidário quer conversar. O Centrão também quer conversar (o Centrão gosta muito de conversar, principalmente quando a conversa envolve ministérios, cargos, relatorias, verbas e emendas). O Centrão nunca está em liquidação.

É possível que o presidente tenha recebido 60 milhões de votos. O presidente da Câmara recebeu votos de um único estado será foi escolhido indiretamente um dos cargos mais importantes da República por algumas centenas de deputados. Ou seja, nem eu nem você provavelmente votou ou conhece nele.  Mas é ele quem decide se determinadas pautas dos 60 milhões de votos serão discutidas.

São as sutilezas da democracia.

Depois de meses de negociação, finalmente o governo consegue aprovar sua proposta. Vitória!

Não exatamente.

 

Falta o Supremo.

A oposição judicializa. Uma associação judicializa. Uma entidade de classe judicializa. Alguém que estava passando pela Praça dos Três Poderes talvez também judicialize. E um ministro pode suspender tudo. Às duas da manhã. Nada disso significa necessariamente que a decisão esteja errada. Pode estar certíssima.

O problema é outro: estamos apenas tentando descobrir quem governa.

O presidente? O Congresso? O presidente da Câmara? O presidente do Senado? O Supremo? Os partidos? As corporações? O Centrão?

Sim.

Esta talvez seja a resposta mais correta.

E toda essa convivência institucional custa dinheiro. Muito dinheiro.

Coalizões precisam ser construídas. Governabilidade precisa ser conquistada. Maiorias precisam ser mantidas. E, de tempos em tempos, a engenharia política ultrapassa aquela pequena linha que separa negociação política de caso de polícia.

Então aparecem mensalões, petrolões e outros escândalos com nomes cada vez mais criativos.

Eles são uma espécie de El Niño da política brasileira. De tempos em tempos voltam. Mudam os nomes. Mudam os personagens. Muda a explicação. O clima continua o mesmo.

Talvez por isso eu tenha começado a desconfiar que a eleição para presidente do Brasil seja uma espécie de boi de piranha da democracia brasileira. O povo fica ocupado com ele.

Lula. Bolsonaro. O candidato de Lula. O candidato de Bolsonaro. O candidato contra os dois.

O candidato que diz não ser candidato enquanto concede entrevistas explicando por que seria um excelente candidato.

Nós brigamos. Discutimos no almoço de domingo. Bloqueamos o cunhado. Saímos do grupo da família. Voltamos ao grupo da família porque alguém ficou doente. Brigamos de novo.

Enquanto isso, alguns metros adiante, a “boiada” atravessa tranquilamente o rio.

 Passam emendas, fundos, cargos, privilégios, estruturas partidárias, corporações e pequenos feudos de poder que sobrevivem a Lula, Bolsonaro, esquerda, direita, centro, crise, impeachment, manifestações e indignações nacionais.

O presidente muda.

A boiada continua.

Talvez a pergunta desta eleição, portanto, não devesse ser apenas: “Quem vai governar o Brasil?” Talvez devêssemos perguntar: “Quem governa o Brasil?”

São perguntas parecidas.

A diferença é que a primeira aparece todos os dias na televisão.

A segunda estraga a festa.

FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER

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