Sei do risco de cancelamento ou de ser queimado em praça pública — ainda que, espero!, apenas metaforicamente — por abordar esse assunto sob esta perspectiva. Mas vivemos uma calamidade e calamidades precisam ser discutidas inclusive pelos ângulos incômodos. Falo da violência contra as mulheres. Das manchetes quase diárias de feminicídios. Das imagens que circulam pela internet, devidamente borradas, mostrando covardes inconformados com o fim de um relacionamento assassinando suas ex-companheiras a sangue-frio, às vezes diante dos próprios filhos. Estamos perdendo essa batalha. E, justamente por isso, talvez seja hora de perguntar se estamos usando todas as armas certas.
Não sei dizer se o número desses crimes efetivamente aumentou nos últimos anos ou se o que aumentou foi a nossa percepção sobre eles. É possível que as mulheres denunciem mais, que a sociedade esteja mais atenta e que aquilo que antigamente terminava escondido atrás da expressão “crime passional” hoje seja chamado pelo nome correto. Seja como for, há uma pergunta que me incomoda – e aqui já começo a sentir o calor das labaredas: será que não deveríamos dar aos feminicídios o mesmo cuidado que há décadas se recomenda à imprensa quando noticia suicídios?
Existe uma razão para que veículos responsáveis evitem transformar suicídios em espetáculos, detalhar métodos ou romantizar seus autores. A preocupação é que determinadas formas de exposição possam produzir imitação, identificação ou oferecer um roteiro a pessoas vulneráveis. Não estou dizendo, evidentemente, que feminicídio e suicídio sejam fenômenos iguais. Não são. Mas talvez exista entre eles uma pergunta em comum: até que ponto a repetição exaustiva de determinados comportamentos extremos pode ajudar a normalizá-los no imaginário de quem já está predisposto a praticá-los?
Porque não tenho dúvida de que a notícia de uma feminicídio convida ao clique. A manchete brutal, o vídeo da câmera de segurança, o áudio da discussão, os últimos minutos da vítima, a fotografia do assassino, a reconstituição do relacionamento — tudo isso alimenta a máquina de atenção da internet. Mas será que precisamos saber, em detalhes, como mais um homem matou a mulher que dizia amar? Para nós, talvez seja indignação. Para um sujeito possessivo, violento e incapaz de aceitar o fim de um relacionamento, pode ser outra coisa: a percepção de que há muitos fazendo o mesmo. Pior: eventualmente, um repertório.
É óbvio que não estou sugerindo esconder a violência contra a mulher, muito menos fingir que ela não existe. Pelo contrário. Talvez devêssemos falar ainda mais sobre violência doméstica, medidas protetivas, canais de denúncia, sinais de relacionamentos abusivos, acolhimento das vítimas e formas de impedir que uma ameaça se transforme em assassinato. O que proponho discutir é outra coisa: se precisamos transformar cada feminicídio consumado em um espetáculo, reproduzido dia e noite nos telejornais e na internet.
Talvez seja preciso inverter a lógica de maneira ainda mais profunda. Em vez de esperarmos que a tragédia aconteça para então depositarmos nossas esperanças na investigação, no julgamento, na condenação e em décadas de prisão (o que, sim, deve ser coberto e divulgado pela mídia), deveríamos investir muito mais no que vem antes dela. Num processo pedagógico permanente, que comece nas escolas, passe pelas famílias e alcance a sociedade inteira através da imprensa e da internet, capaz de discutir sem constrangimentos machismo, misoginia, posse, ciúme, poder e masculinidade. Precisamos ensinar, sobretudo aos meninos, algo que deveria ser óbvio: ninguém é dono de ninguém; amor não se confunde com posse; ciúme não é prova de afeto; e o fim de uma relação não é uma humilhação a ser vingada. O Direito Penal continuará sendo necessário para quem atravessar essa fronteira, mas cadeia é a resposta que o Estado oferece quando todo o resto já deu errado — e, para a mulher assassinada, ela inevitavelmente chega tarde demais.
É hora, talvez, de inverter a lógica. Falar menos do assassino e mais de tudo aquilo que possa evitar o próximo assassinato. Dar espaço às vítimas, às redes de proteção, aos sinais de relacionamentos abusivos, aos canais de denúncia, à educação e às histórias de mulheres que conseguiram romper o ciclo da violência. E, quando o crime acontecer, que se noticie o necessário – inclusive a prisão e a condenação – sem transformar o autor em personagem, sua perversidade em espetáculo e seus métodos em roteiro. Não precisamos conhecer sua biografia, ouvir seus áudios, assistir repetidamente ao vídeo do crime ou descobrir o que escreveu nas redes sociais horas antes de matar. Se a intenção é combater uma epidemia, talvez devamos começar escolhendo melhor para onde apontamos nossas câmeras. A violência precisa de atenção. As vítimas precisam de voz.
Maluco não precisa de holofote.
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