As moções de aplausos e de repúdio, instrumentos legítimos das casas legislativas, deveriam expressar, com clareza e firmeza, o posicionamento ético e político dos parlamentares diante dos fatos relevantes que afetam a sociedade. No entanto, o que se observa, na prática, é o uso oportunista e seletivo dessas ferramentas. Quando o tema é palatável, midiático ou rende curtidas fáceis nas redes sociais, há uma corrida para aparecer bem na foto: todos querem ser protagonistas, os “pais da criança”. Mas quando o assunto exige coragem moral, como o RACISMO, reina o silêncio covarde, a omissão estratégica e a desculpa esfarrapada da "interpretação diferente".
É aí que entram os vereadores com postura de corte: aqueles que encarnam um personagem digno da monarquia britânica, sempre muito serenos, distantes, polidos — verdadeiros representantes da "nobreza legislativa". Com ares Elisabetanos, preferem não se rebaixar a temas “sensíveis demais”, afinal, o incômodo da realidade concreta não combina com seus discursos floreados e poses dignas de retratos a óleo.
Esses parlamentares, que se derretem em homenagens a influencers, a inaugurações de lombadas e festivais de cucas, desaparecem misteriosamente quando a pauta é séria, indigesta e exige posicionamento. Racismo? "Vejamos, é uma questão de ponto de vista", dizem com voz mansa e olhares distantes, como se discutir dignidade humana fosse uma grosseria — uma quebra do protocolo da sua bolha de conveniência.
É fácil aplaudir um atleta da cidade, um evento cultural ou uma campanha popular. Difícil é levantar a voz contra o racismo estrutural, contra atitudes e falas claramente preconceituosas, contra manifestações que ferem a dignidade humana. Nessas horas, muitos legisladores se escondem atrás de tecnicalidades, relativizações ou de uma conveniente miopia moral. Alegam que “não viram por esse ângulo”, que “não cabe julgamento”, ou simplesmente se ausentam, física ou politicamente.
O que se revela, nesse comportamento seletivo, é a demagogia escancarada: moções não são mais expressão de valores, mas de conveniência. Para os que deveriam representar o povo, torna-se mais importante manter boa imagem diante de determinados grupos do que sustentar uma posição coerente e justa diante de todos.
Quando a casa legislativa se cala diante do racismo, ela se posiciona — e se posiciona ao lado do opressor. A neutralidade, nesses casos, é cumplicidade. Moção de repúdio, nesses contextos, não é uma questão de interpretação — é uma exigência ética. E o parlamentar que foge disso revela que sua função está submetida ao jogo político barato, não ao compromisso com a justiça social.
A sociedade já não precisa de mais homenagens vazias. Precisa de representantes com coragem. Coragem para aplaudir quando é justo, mas também para se indignar quando é necessário. E, principalmente, para não silenciar quando o silêncio mata — como no caso do racismo.
Alfroh Postai
Ex Secretário Municipal de Educação de Timbó na empresa Prefeitura de Timbó
Trabalhou como Diretor da Escola Municipal Professor Nestor Margarida na empresa Prefeitura de Timbó
Trabalhou como Professor na empresa CEDUP
FONTE/CRÉDITOS: Alfroh Postai
O texto acima expressa a visão de quem o escreveu, não necessariamente a de nosso portal.
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