Deu na internet — e, se deu na internet, evidentemente é verdade — que Gabriel García Márquez teria se inspirado em O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, para escrever Cem Anos de Solidão. São meus livros preferidos e meus autores preferidos.
Confesso, porém, que prefiro o calor modorrento que envolve as histórias de Gabo ao dos pampas das de Erico – é que suporto melhor um surto de insônia em Macondo do que um minuano entrando pela fresta da janela (afinal “noite de vento, noite dos mortos).
Por isso, se me fosse permitido sugerir um livro que García Márquez não escreveu, eu pensaria num romance sobre um ditador de uma república tropical. Dessas com generais de óculos escuros, tanques enferrujados, charutos, medalhas até o umbigo e um retrato do presidente em cada repartição pública. Uma república com uma Constituição grossa, eleições regulares, tribunais solenes com autoridades se tratando por “Vossa Excelência” mesmo quando estão dizendo umas às outras coisas que, num boteco, terminariam em cadeira voando.
A história começaria assim:
“Ninguém sabia ao certo quando El Dictador começara a mandar naquela república.
Ele não tomou o poder montado num cavalo branco. Não cercou o palácio presidencial. Não dissolveu o Parlamento. Não mandou fuzilar o antecessor ao amanhecer, como mandava a tradição das repúblicas vizinhas.
Chegou de toga.
Era um homem grande. Vestia ternos bem cortados e levava no bolso um relógio de ouro que nunca consultava, porque considerava que as horas deveriam esperar por ele. Havia boatos de que tinha fazendas, dois filhos legítimos, número incerto de bastardos e duas concubinas. Havia ainda rumores sobre uma terceira, mas até naquela república existiam assuntos que a imprensa tratava com responsabilidade.
Depois do almoço, El Dictador dormia suas sestas.
Era uma regra mais respeitada que a Constituição.
Entre uma e três da tarde, ministros não despachavam, generais não faziam revoluções, delegados não prendiam e os sinos da igreja pareciam tocar mais baixo. Certa vez um terremoto derrubou duas casas durante a sesta e o presidente esperou que El Dictador acordasse para comunicar a tragédia. Era homem prudente.
Logo depois de investido de seus poderes, El Dictador descobriu, porque ninguém reclamou, que podia mandar investigar seus desafetos.
Melhor ainda: podia participar da investigação.
E, numa dessas delicadezas jurídicas que só existem em repúblicas de banana e romances de quatrocentas páginas, descobriu que poderia conduzir investigações sobre ofensas das quais ele próprio e seus companheiros eram vítimas.
Os cidadãos acharam estranho.
Os catedráticos franziram a testa.
Alguns rábulas escreveram artigos enormes nos jornais da capital.
Como ninguém foi preso por franzir a testa e os jornais continuaram circulando na manhã seguinte, concluiu-se que as liberdades públicas permaneciam intactas.
Depois descobriu, porque ninguém se opôs a ele, que uma investigação não precisava terminar.
Podia atravessar a estação das chuvas, a colheita do café, a seca, as procissões, carnavais e as eleições. Podia sobreviver ao delegado que a começara, ao escrivão que perdera os autos e até ao investigado.
Os cidadãos se acostumaram. O ser humano se acostuma com quase tudo. Com o calor, com os mosquitos, com o preço do café e com arbitrariedades praticadas contra o vizinho.
Principalmente com as arbitrariedades praticadas contra o vizinho.
Certo dia, El Dictador soube que homens diziam coisas inconvenientes na Plaza de las Armas. Mandou prendê-los e jogar a chave fora. Na semana seguinte, mandou fechar o jornal que publicou o discurso. Depois proibiu outro. Um terceiro continuou circulando, mas misteriosamente passou a dedicar a primeira página à previsão do tempo e à criação de galinhas poedeiras.
‘Isso é censura!’, alguém protestou.
‘Impossível’, respondeu o Ministro da Justiça, ‘Há uma ordem escrita’.
A explicação satisfez quase todos.
‘Todo en nombre de la defensa de la democracia y de las instituciones’, justificava El Dictador, antes de acender um charuto ganho de presente.
A república acabara de realizar uma descoberta jurídica extraordinária: uma arbitrariedade deixava de ser arbitrariedade quando vinha acompanhada de carimbo.
Vieram então buscas, apreensões e prisões.
A polícia começou a aparecer de madrugada nas casas dos desafetos. Cartas particulares foram abertas. Telegramas foram interceptados. Conversas ouvidas nas mesas dos cafés passaram a interessar ao governo. Certa vez, alguns comerciantes foram acordados antes do nascer do sol porque, durante uma partida de dominó, um deles teria dito que El Dictador era um hijo de puta. Conspiradores!
Em outra ocasião, um parlamentar foi recolhido por ordem direta de El Dictador, sem que delegado ou promotor tivesse pedido coisa alguma.
Parte do Parlamento protestou energicamente.
Depois confirmou a prisão.
A população acompanhava tudo com interesse.
Metade aplaudia porque detestava os presos.
A outra metade protestava porque gostava deles.
Pouquíssimos tiveram a desagradável ideia de perguntar se uma regra deixava de ser perigosa quando aplicada contra alguém de quem não gostamos.
Esses passaram a ser conhecidos como subversivos.
Não foram presos... ainda.
Vieram novas proibições, novos mandados, novas prisões e novos processos. Nada acontecia de uma vez.
Era sempre um pequeno passo.
Talvez seja essa a grande vantagem dos pequenos passos: ninguém organiza uma revolução porque alguém avançou vinte centímetros.
E a vida continuava.
As mulheres iam à missa.
Os homens jogavam dominó sob as mangueiras.
Os comerciantes abriam as portas às oito.
Havia touradas aos domingos.
Mercedes esperava El Dictador às terças.
Soledad, às quintas.
Às quartas ele dizia que precisava descansar.
Havia eleições.
Naturalmente, também havia uma Constituição.
Era uma Constituição magnífica. Encadernada em couro verde, impressa em papel grosso e guardada numa caixa de madeira no salão principal do Tribunal. As crianças aprendiam na escola que ela garantia a liberdade, a igualdade, o devido processo e uma quantidade admirável de outros direitos.
Mas Pouquíssimas pessoas tinham lido a Constituição.
El Dictador era uma delas.
Talvez por isso soubesse tão bem onde estavam as margens.
Advogados, professores e jornalistas discutiam juiz natural, imparcialidade, contraditório, ampla defesa e limites do poder. Algumas decisões de El Dictador eram contestadas. Muitas eram confirmadas por seus companheiros.
E a república seguia funcionando.
Essa era a parte mais extraordinária.
O Parlamento continuava aberto.
Os tribunais julgavam.
Os jornais circulavam.
As eleições aconteciam.
Os sinos tocavam às seis.
E El Dictador dormia depois do almoço.
Naquela república, ninguém precisava destruir as instituições.
Bastava usá-las.
E assim, El Dictador governou feliz durante muitos anos, cercado de leis, carimbos, escrivães, processos, charutos e cidadãos absolutamente convencidos de que reconheceriam uma ditadura imediatamente, porque todos sabiam que ditadores usavam farda.
Até que, numa manhã de novembro, quando as cigarras cantavam tão alto que os habitantes da capital precisavam gritar para conversar, a casa pareceu cair.
El Dictador foi acusado de corrupção. Havia provas irrefutáveis.
O povo se animou.
Corrupção era uma coisa que todos entendiam. Muito mais simples do que discutir competência, imparcialidade ou limites do poder. Além disso, durante vários anos El Dictador e seus pares mandaram prender homens em nome do combate justamente à corrupção, em defesa da democracia e das instituições.
Marcou-se o julgamento para uma terça-feira.
Não pela manhã, porque El Dictador detestava acordar cedo.
Nem depois do almoço, por causa da sesta.
Começaria às dez.
Seus companheiros ocupariam as cadeiras dos julgadores.
El Dictador, finalmente, ocuparia o banco dos réus.
Naquele dia, lojas fecharam mais cedo. Os bondes chegaram lotados à praça. O barbeiro suspendeu o expediente.
A República inteira esperava.
Era o grande momento.
Mas os companheiros de El Dictador, alguns deles também mencionados nos papéis comprometedores encontrados na casa de um comerciante, começaram a descobrir soluções jurídicas.
Surgiram preliminares.
Questões de ordem.
Interpretações.
Distinções.
Ressalvas.
Então algo extraordinário aconteceu.
El Dictador se levantou lentamente do banco dos réus.
Abotoou o paletó.
Caminhou até a bancada dos julgadores.
O salão silenciou.
Um oficial puxou-lhe a cadeira.
El Dictador então se sentou, pediu um copo d’água e consultou o relógio de ouro que nunca consultava.
E então começou a proferir seu voto no julgamento em que ele próprio era réu...”
Paro por aqui. Não por falta de imaginação.
Por respeito à literatura e um pouco de embrulho no estômago.
Gabriel García Márquez foi um gênio do realismo fantástico. Mas tudo tem limite!
Se Gabo escrevesse que um homem investigado participara do próprio julgamento e votara sobre a própria causa, algum editor sensato riscaria o parágrafo e escreveria na margem:
“Menos, Gabo. Ninguém vai acreditar.”
Esta é uma obra de ficção. Os nomes, personagens, lugares e negócios são produtos da imaginação do autor ou usados de forma fictícia. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, ou fatos reais é mera coincidência
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