Aguarde, carregando...

Domingo, 20 de Setembro 2026
Colunas/Geral

A ÚLTIMA BOLACHA BONO DE DOCE DE LEITE DO PACOTE

Breve tratado sobre pais, filhos e grupos de whatsapp

A ÚLTIMA BOLACHA BONO DE DOCE DE LEITE DO PACOTE
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Minha geração gosta de desprezar os adolescentes de hoje. Costumamos desdenhar o “farmar aura”, não entendemos a ideia do “six-seven” e temos absoluta convicção de que nenhuma geração que cresceu assistindo a vídeos de quinze segundos será capaz de compreender a profundidade filosófica de Smells Like Teen Spirit ou Eduardo e Mônica. Então contamos, pela milésima vez, que na nossa época não havia celular, que vivíamos na rua e que para falar com uma menina era preciso telefonar para o fixo da casa dela e enfrentar a possibilidade real de o pai atender. Sobrevivemos às baladas sem WhatsApp, aos trabalhos escolares feitos com Barsa e aos cabelos dos anos 1990. Por isso, nos consideramos uma espécie de geração escolhida: os alecrins dourados, o gás da Coca-Cola, a última bolacha Bono de doce de leite do pacote.

O problema é que talvez sejamos muito bons em enxergar a mediocridade dos adolescentes e um pouco míopes para perceber a nossa como pais. Somos a geração que enche o peito para contar que ensinou o filho a “não levar desaforo para casa”, que “se bater, é para bater de volta”, como se estivéssemos criando pequenos gladiadores romanos. Mas basta acontecer alguma coisa no colégio para o mesmo pai que ensinou o menino a resolver seus problemas sozinho produzir um manifesto de dezessete parágrafos no grupo de WhatsApp. Com direito a “não queria me manifestar, mas...” — frase que, em grupos de pais, anuncia justamente alguém que queria muito se manifestar.

Também somos os pais que reclamam da quantidade de tarefas que a escola manda e, logo depois, sentam ao lado do filho para ajudá-lo a fazer justamente aquelas tarefas. Às vezes “ajudar” significa explicar; às vezes significa praticamente cursar novamente o ensino fundamental. Se o trabalho ficar ruim, melhoramos. Se esquecer a cartolina, levamos. Se perder o prazo, escrevemos para a professora. Se tirar nota baixa, queremos saber onde a escola falhou. Criamos filhos autônomos sob rigorosa supervisão dos pais.

E talvez esteja aí a nossa maior contradição. Queremos filhos independentes, resilientes, fortes, capazes de enfrentar frustrações — desde que ninguém os frustre. Ao primeiro conflito, aparecemos. Brigamos com professores, treinadores, coordenadores, árbitros, outros pais e, se for necessário, até com crianças de treze anos que cometeram o crime gravíssimo de não reconhecer todo o potencial do nosso rebento. Pouco importa se ele estava certo, errado, jogou mal, perdeu a vaga no time ou simplesmente fez uma bobagem. Antes de descobrir o que aconteceu, já escolhemos o lado. Somos advogados de defesa dos nossos filhos em regime de plantão permanente, inclusive quando o cliente é culpado e confessou.

Eu sei: neste momento você está pensando que não é assim. Naturalmente. Ninguém é. Os pais barraqueiros, neuróticos e superprotetores são sempre os outros. Nós apenas “defendemos nossos filhos”. Talvez valha, então, um exercício simples: lembrar dos nossos próprios pais. Eles telefonariam para o treinador porque ficamos no banco? Discutiriam com um professor por causa de uma nota? Procurariam os pais de um colega porque ele não nos convidou para uma festa? Ou, diante da nossa indignação adolescente, diriam algo profundamente terapêutico como “te vira”, “acontece” ou “da próxima vez faz melhor”? Sobrevivemos a uma quantidade razoável de frustrações justamente porque ninguém apareceu correndo para removê-las do caminho.

Talvez esteja na hora, portanto, de parar de culpar a geração Alpha por não ser como nós. Eles têm “farmar aura”, “six-seven”, TikTok e expressões que nos fazem parecer nossos próprios pais tentando entender o que significava “ficar”. Nós tivemos Nirvana, Barrados no Baile, fliperama, telefone fixo e a convicção igualmente adolescente de que éramos a primeira geração da história a compreender o mundo. A diferença é que agora temos boletos, hérnia de disco e filhos adolescentes. Está na hora de tirar a camiseta do Pearl Jam, tomar vergonha na cara, crescer e fazer uma coisa revolucionária: deixar que nossos filhos sejam os únicos adolescentes da casa.

FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp Vale Europeu Notícias
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR