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Uma fala publicada por um morador de Rio dos Cedros expõe algo maior do que uma simples discussão nas redes sociais: a transformação do debate político em uma verdadeira guerra de egos, ofensas e tentativas de demonstrar superioridade.
“Tenho casas alugadas”, “tenho dinheiro”, “tenho cidadania italiana”, “tenho um chalé na região de Trento e recebo em euros”.
As frases fazem parte de uma manifestação publicada nas redes sociais por um morador de Rio dos Cedros, em meio a uma discussão política. O problema não está em alguém ter patrimônio, morar de aluguel, possuir cidadania estrangeira ou receber renda em outra moeda.
O problema começa quando patrimônio, dinheiro ou posição social passam a ser utilizados como argumento para diminuir quem pensa diferente.
Afinal, desde quando ter mais dinheiro transforma alguém em dono da verdade?
Desde quando possuir imóveis significa ter mais direito à opinião?
Desde quando ter cidadania italiana faz uma pessoa ser superior a outra?
A resposta deveria ser óbvia: nunca.
O debate político catarinense está passando do limite?
Santa Catarina, como o restante do país, atravessa um período de forte polarização política. O problema é quando a divergência deixa de ser política e passa a ser pessoal.
O adversário político deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser tratado como inimigo.
A crítica vira ofensa.
A discordância vira provocação.
E as redes sociais acabam funcionando como um palco permanente para demonstrações de arrogância, intolerância e ataques pessoais.
Não é necessário concordar com ninguém.
Mas é necessário respeitar o direito do outro de pensar diferente.
O próprio Tribunal Superior Eleitoral firmou, em setembro de 2026, o Pacto Nacional pela Paz e Tolerância nas Eleições, destacando diálogo, respeito às diferenças e combate à violência política.
O TSE também considera o discurso de ódio e conteúdos que possam comprometer o ambiente democrático entre os temas que merecem atenção no processo eleitoral.
Dinheiro não compra razão
A fala do morador chama atenção justamente porque transforma uma discussão política em uma espécie de apresentação de patrimônio.
Casas alugadas.
Dinheiro.
Carro.
Cidadania italiana.
Imóvel na Europa.
Renda em euros.
Tudo isso pode fazer parte da vida privada de qualquer cidadão.
Mas nada disso responde à pergunta principal de qualquer debate político:
Qual é o argumento?
Porque democracia não funciona pela quantidade de dinheiro que alguém possui.
Não funciona pelo número de imóveis.
Não funciona pelo país onde alguém possui cidadania.
E muito menos pelo tamanho do patrimônio.
Funciona pela capacidade de apresentar ideias, defender posições e aceitar que outras pessoas tenham opiniões diferentes.
E aqui está o ponto mais preocupante
A sociedade catarinense precisa tomar cuidado para não transformar a política em uma competição permanente de quem grita mais alto, ofende mais ou consegue humilhar melhor o adversário.
Isso vale para a direita.
Vale para a esquerda.
Vale para o centro.
Vale para qualquer partido.
Vale para qualquer cidadão.
Não existe imunidade moral por causa de ideologia política.
E também não existe autorização para atacar pessoas simplesmente porque elas votam ou pensam diferente.
O próprio TSE registra que, durante o período eleitoral, a liberdade de manifestação encontra limites quando há ofensa à honra ou à imagem, divulgação de fatos sabidamente inverídicos ou discurso de ódio.
Quando a política abandona os argumentos
Também preocupa quando figuras públicas alimentam esse ambiente de confronto permanente.
Um governador, prefeito, vereador ou qualquer outra autoridade deveria compreender que sua posição institucional exige responsabilidade.
Da mesma forma, o cidadão comum também precisa compreender que liberdade de expressão não significa licença para humilhar, ameaçar ou transformar qualquer divergência em guerra pessoal.
E isso nos leva a outro episódio que ganhou repercussão em Santa Catarina: ocorrências policiais envolvendo discussões relacionadas à perturbação do sossego e a atuação dos agentes públicos.
Uma ocorrência pode e deve ser atendida.
A autoridade policial tem o dever de agir quando existe uma situação que demande intervenção.
Mas a força utilizada pelo Estado precisa ser proporcional, necessária e devidamente justificada, especialmente quando envolve uma mulher, uma advogada ou qualquer outro cidadão.
Questionar uma atuação policial não significa ser contra a Polícia Militar.
Da mesma forma, defender a atuação policial não significa aceitar qualquer excesso.
O que deve existir é apuração, transparência e respeito à lei.
O que estamos ensinando para nossos filhos?
Talvez essa seja a pergunta que realmente importa.
Estamos ensinando que quem tem dinheiro vale mais?
Que quem possui patrimônio pode humilhar quem tem menos?
Que quem pensa diferente merece ser atacado?
Que política significa odiar o adversário?
Que uma discussão precisa necessariamente terminar em ofensa?
Se essa for a política que estamos construindo, então o problema não é apenas eleitoral.
É social.
Porque uma democracia saudável precisa de pessoas capazes de discordar sem se destruir.
O cidadão não precisa ser rico para ter opinião
Esse talvez seja o ponto mais importante de toda essa discussão.
O trabalhador que acorda cedo, pega ônibus, paga seus impostos e luta para sustentar sua família tem exatamente o mesmo direito de expressar sua opinião política que o empresário milionário, o proprietário de imóveis, o profissional liberal ou qualquer pessoa que tenha patrimônio no Brasil ou no exterior.
Opinião não tem classe social.
E cidadania não se mede em euros.
Patrimônio não concede autoridade moral.
E dinheiro definitivamente não compra razão.
Santa Catarina precisa discutir política.
Precisa cobrar prefeitos.
Precisa cobrar vereadores.
Precisa cobrar deputados.
Precisa cobrar governador.
Precisa cobrar autoridades.
Mas precisa também aprender uma coisa básica:
discordar não é odiar.
O adversário político não precisa ser seu inimigo.
E quem precisa mostrar que é superior não é quem possui mais dinheiro.
É quem consegue manter o respeito mesmo quando está diante de alguém que pensa completamente diferente.
Porque, no fim das contas, democracia não é sobre quem tem mais. É sobre todos terem voz.
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