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Sábado, 26 de Setembro 2026
Colunas/Geral

QUEM CONVERTE NÃO SE DIVERTE — MAS ENTENDE

Uma unidade monetária criada para entendermos o tamanho das nossas contas

QUEM CONVERTE NÃO SE DIVERTE — MAS ENTENDE
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Quando viajo para o exterior, tenho um método bastante rudimentar para lidar com o câmbio. Escolho uma conta redonda e passo a enxergar o mundo por ela. Cinquenta euros? Trezentos reais. Cem euros? Seiscentos. Não importa se a cotação real é um pouco diferente. O importante é evitar que, depois de três dias de viagem, eu esteja pagando R$ 136 por um sanduíche e chamando aquilo de “experiência gastronômica”.

Conheço, naturalmente, a máxima segundo a qual “quem converte não se diverte”. É verdade. Mas quem não converte costuma se divertir bastante durante a viagem e ter uma experiência espiritual muito profunda quando chega a fatura do cartão.

Ultimamente resolvi aplicar o mesmo método ao Brasil.

Criei minha própria unidade monetária: O mês de ICMS catarinense.

Funciona assim:

Você tem ideia de quanto Santa Catarina arrecada de ICMS por ano?

[Pausa de suspense].

Em 2024, somente o valor principal do ICMS arrecadado em Santa Catarina chegou a R$ 41,54 bilhões. Considerando também multas, juros e dívida ativa, a arrecadação bruta alcançou R$ 42,73 bilhões. Para facilitar a brincadeira, vou usar os R$ 41,54 bilhões.

Isso significa aproximadamente R$ 3,46 bilhões por mês.

[Antes que alguém pense que esses R$ 41 bilhões surgem espontaneamente nos cofres do Estado, convém lembrar de onde eles vêm: do nosso bolso. Quando você compra uma televisão, paga ICMS. Quando abastece o carro, paga ICMS. Quando compra uma geladeira, um tênis ou o presente de aniversário do seu filho, lá está ele. Até quando você paga a conta de luz, o ICMS aparece para lembrar que o Estado também gosta de participar dos momentos iluminados da sua vida.]

Pronto. Nasceu o MIC — Mês de ICMS Catarinense.

Minha nova moeda para compreender o Brasil.

Porque bilhões têm um defeito grave: depois do terceiro, parecem todos iguais. R$ 5 bilhões, R$ 20 bilhões, R$ 50 bilhões... o cérebro humano simplesmente desiste. É como contar estrelas: depois de certo ponto você apenas aceita que são muitas.

Mas meses de ICMS, não. Esses eu consigo visualizar.

Vamos começar pelo Fundo Eleitoral.

Para as eleições de 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha distribuiu R$ 4,96 bilhões aos partidos políticos.

Convertendo para nossa nova moeda: 1,43 mês de ICMS catarinense.

Ou seja: imagine toda a arrecadação de ICMS de Santa Catarina durante janeiro. Blumenau pagando. Joinville pagando. Chapecó pagando. Florianópolis pagando. Indústria, supermercado, comércio, combustível, energia, todo mundo pagando.

Terminou janeiro? Ainda falta quase metade de fevereiro. Aí fechamos a conta da campanha eleitoral.

Democracia custa caro! 

Passemos ao caso Master.

Somando os valores atribuídos às instituições relacionadas ao caso — cerca de R$ 40,6 bilhões do Master, R$ 6,3 bilhões do Will Bank e R$ 4,9 bilhões do Pleno — a conta de garantias do FGC chegou a aproximadamente R$ 51,8 bilhões.

Na minha calculadora catarinense: quase 15 meses de ICMS.

Isso mesmo.

Santa Catarina inteira teria que arrecadar ICMS de janeiro a dezembro e ainda continuar trabalhando até aproximadamente março do ano seguinte.

É uma unidade de medida interessante porque R$ 51,8 bilhões parece apenas um número grande.

Quinze meses de Santa Catarina trabalhando já dá uma leve coceira.

E aqui faço uma advertência antes que algum economista ou tributarista tenha um princípio de AVC: eu sei que estou comparando coisas absolutamente diferentes. ICMS estadual, fundo privado, orçamento federal, despesa eleitoral, investimentos em infraestrutura.

Estou misturando alhos com bugalhos (mas convenhamos: alhos e bugalhos ficam muito mais interessantes quando todos vêm com preço).

O Supremo Tribunal Federal, por exemplo, aprovou proposta orçamentária de R$ 1,2 bilhão para 2027. Convertendo: dez dias e meio de ICMS catarinense.

A ViaMar – aquele alardeado projeto rodoviário do Governo de Santa Catarina, de cerca de 145 quilômetros, ligando Joinville ao Contorno Viário da Grande Florianópolis – tem um custo preliminar estimado de R$ 9 bilhões.

Isso equivale a aproximadamente: 2,6 meses de ICMS catarinense.

E aqui a brincadeira começa a produzir um efeito colateral desagradável: perspectiva.

Porque R$ 9 bilhões parecem uma fortuna quando aparecem ao lado de uma rodovia. Mas começam a parecer surpreendentemente razoáveis depois que você descobre que o Fundo Eleitoral custa mais da metade disso.

Uma rodovia de 145 quilômetros: R$ 9 bilhões. Uma única eleição: R$ 4,96 bilhões.

De repente você percebe que existem dois tipos de infraestrutura no Brasil.

Aquela feita de asfalto; e aquela feita de bandeirolas infames (leia https://www.valeeuropeunoticias.com.br/coluna/primavera-eleitoral), cabos eleitorais, jingles e vídeos de candidatos caminhando lentamente por feiras enquanto fingem escolher tomate.

Não estou dizendo que uma despesa possa simplesmente ser transferida para outra — orçamento público não funciona como a carteira do sujeito que deixa de casar para comprar uma bicicleta.

Estou propondo apenas uma calculadora. Uma maneira menos anestesiada de olhar para números que, de tão grandes, perderam o significado.

Talvez devêssemos fazer isso com tudo. Hospital: quantos dias de ICMS? Ponte: quantas semanas? Escola: quantas horas? Fundo eleitoral: quantos meses? Escândalo financeiro: quantos anos?

Porque dinheiro público tem uma extraordinária capacidade de deixar de parecer dinheiro quando ganha nove zeros e aparece numa planilha oficial.

R$ 3 mil é dinheiro.

R$ 3 milhões é muito dinheiro.

R$ 3 bilhões é uma “dotação orçamentária”.

E talvez esteja justamente aí um dos truques mais eficientes da burocracia: depois de certa quantidade de zeros, nosso dinheiro deixa de parecer nosso.

Por isso, doravante, sempre que Brasília anunciar alguma coisa custando bilhões, farei a conversão.

Não sei se vou me divertir mais. Mas finalmente vou entender a conta.

 

FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER

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