Blumenau sempre viveu às margens do Rio Itajaí-Açu. Literalmente. E emocionalmente também. Nossa relação com ele lembra um pouco a síndrome de Estocolmo: passamos boa parte da vida reclamando de suas cheias, contabilizando prejuízos e prometendo nunca mais confiar nele. Depois a água baixa, o tempo passa e voltamos a caminhar ao seu lado como se nada tivesse acontecido. Afinal, foi por esse mesmo rio que chegaram os imigrantes que fundaram a cidade. Durante décadas, ele foi nossa estrada, até que o trem (por algum tempo), e depois os automóveis e caminhões, aposentaram barcos e carroças.
É curioso.
Se o Itajaí-Açu cortasse Paris, provavelmente teria casais tirando selfies em suas margens. Se atravessasse Londres, haveria turistas disputando espaço para fotografá-lo. Se passasse por Berlim, seria cenário de cartões-postais. Como ele passa por Blumenau, fazemos o possível para ignorá-lo. Olhamos mais para o celular do que para o rio. Talvez porque a beleza cotidiana tenha esse defeito: de tanto estar ali, deixa de ser percebida.
Quando a Avenida Beira-Rio foi inaugurada, na década de 1970, ela nos deu uma vista privilegiada do Itajaí-Açu. Mas a pressa nunca permitiu que aproveitássemos a paisagem. A avenida servia para dar um “drible da vaca” no centro, não para contemplá-lo. Também é verdade que, por muito tempo, a margem esquerda não ajudava muito. Faltava-lhe o charme que convidasse alguém a parar o carro — ou melhor, largar o carro.
Hoje a história é outra. A revitalização da margem esquerda revelou uma cidade que parecia escondida atrás do próprio rio. De lá, Blumenau fica ainda mais bonita. O centro histórico ganha outro enquadramento, o pôr do sol parece caprichar nas cores e o rio, pela primeira vez em muito tempo, deixa de ser apenas uma preocupação para voltar a ser paisagem.
Agora vem a parte que não cabe ao poder público. Cabe a nós. Um espaço como aquele só se torna verdadeiramente público quando é ocupado por pessoas. Com bicicletas, corredores, remadores, famílias fazendo piquenique, amigos em um happy hour, crianças brincando, artistas tocando ao ar livre e, quem sabe, até sessões de cinema ao ar livre (já pensou?). Espaços vazios acabam atraindo quem não deveria ocupá-los. Espaços cheios de vida costumam expulsar os problemas naturalmente.
Aliás, a iniciativa privada pode enxergar ali uma oportunidade de criar cervejarias, cafés, restaurantes e atrações que transformem a margem esquerda e a Beira-Rio no nosso Puerto Madero.
Mas nada disso acontecerá sem o ingrediente principal: o blumenauense. Basta fazer uma pequena revolução. Deixar o carro em casa de vez em quando, caminhar até o rio e, finalmente, descobrir que ele sempre foi muito mais bonito do que imaginávamos e fazer as pazes com ele.
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