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Sobre a dificuldade de admirar quem pensa diferente

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Existe um fenômeno que tem me incomodado bastante recentemente: a crescente incapacidade das pessoas de separar o artista da obra.

Não estou falando do afã de meia dúzia de aplicar as réguas morais de 2026 a pessoas que viveram em 1826. Recentemente teve gente derrubando estátuas, incendiando monumentos e discutindo se determinados autores deveriam continuar nas bibliotecas porque tinham opiniões que hoje fariam deles “cancelados”.

Também não pretendo entrar na discussão sobre movimentos como o #MeToo e as denúncias contra diretores, atores e produtores acusados de crimes e abusos. É uma discussão importante, mas diferente daquela que trato aqui. Até porque deveria existir uma distância razoável entre descobrir que o sujeito cometeu um crime e descobrir que ele vota diferente de você.

O que me interessa é um fenômeno bem mais cotidiano: o que fazemos com uma obra quando descobrimos que seu autor pensa “errado”.

“Pensa errado”, naturalmente, significa pensa diferente de mim.

E acho que aqui existem duas situações completamente diferentes:

A primeira é renunciar à admiração que já tínhamos por uma obra depois de descobrirmos as opiniões de seu autor.

Você adorava o livro. Leu três vezes. Recomendou aos amigos. Deu de presente no Natal. Até que, numa terça-feira qualquer, descobriu que o escritor votou no candidato errado.

“Passei a odiar ‘Vestido de Noiva’ porque Nelson Rodrigues era um reacionário  conservador!”; ou “Comecei a detestar ‘Gabriela, Cravo e Canela’ porque Jorge Amado era um comunista!”

É curioso porque o livro não mudou uma vírgula.

Nós é que mudamos.

A segunda situação me parece a mais interessante — e talvez a mais preocupante: não se permitir sequer conhecer uma obra porque já sabemos previamente o que pensa o artista.

Aparentemente, desenvolvemos a necessidade de realizar uma espécie de auditoria ideológica antes de apreciar qualquer manifestação artística.

Não basta saber se o livro é bom; precisamos saber em quem o escritor votou. Não basta gostar da música; convém verificar o posicionamento do cantor sobre Palestina e Israel, aquecimento global, linguagem neutra e escala 6x1. Antes de rir do humorista, é recomendável consultar suas últimas cinquenta postagens no X.

Nunca se sabe.

Você pode acabar rindo de alguém que discorda de você sobre vacinas.

Idos tempos em que, na fila do cinema, a gente perguntava se o filme era bom. Hoje convém descobrir antes se o diretor está em dia com as nossas convicções. E, se não estiver, melhor ainda: podemos não assistir ao filme e escrever um longo texto explicando por que não assistimos ao filme que não assistimos.

É o famoso “não li, mas não gostei”; ou “não vi, mas não gostei”.

Talvez seja preguiça intelectual.

Talvez seja medo da dissonância cognitiva.

Talvez tenhamos simplesmente perdido o hábito de conviver com a ideia perturbadora de que alguém pode estar profundamente errado sobre algumas coisas e ainda assim ser extraordinariamente bom em outras.

Se levarmos o novo critério a sério, teremos bastante trabalho.

Será preciso reorganizar bibliotecas, playlists, plataformas de streaming e, principalmente, nossas memórias afetivas. Teremos de investigar Gabriel García Márquez, Erico Verissimo, Stieg Larsson, Cazuza, Criolo, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi e todos os demais antes de decidir quais lembranças estamos ideologicamente autorizados a nos apegar.

Há, evidentemente, casos em que conhecer a vida do artista muda profundamente a maneira como enxergamos sua obra. É inevitável. Arte não é produzida no vácuo, e ninguém tem obrigação de continuar consumindo o trabalho de alguém que lhe cause repulsa.

O problema começa quando transformamos essa escolha pessoal numa teoria estética: se o autor pensa errado, a obra automaticamente passa a ser ruim.

Ora, um romance não perde adjetivos quando seu autor dá uma entrevista idiota. Uma música não desafina porque o cantor publicou uma bobagem. Um quadro não muda de cor porque descobrimos em quem o pintor votaria.

A obra permanece ali.

Para nosso desconforto.

Aliás, adoro uma frase que ouvi certa vez do saudoso Magro Lima, no também saudoso podcast Era uma vez no Oeste:

“A arte serve para perturbar o conformados e conformar os perturbados.”

Ao escrever esta crônica, fui procurar a origem da frase e cheguei ao jornalista americano Finley Peter Dunne, a quem é atribuída uma versão parecida, talvez a original: "a arte deve confortar os aflitos e afligir os confortáveis".

(Sou mais a versão do Magro.)

E talvez seja justamente esse desconforto uma das coisas mais interessantes da arte.

Há uma passagem famosa de John Lennon –um dos quatro Beatles [faço questão de explicar, porque dia desses precisei explicar para uma turma de Direito quem foi Rui Barbosa, que, a propósito, foi um jurista e político brasileiro] – durante uma apresentação do quarteto no Royal Variety Performance. Diante de uma plateia que incluía membros da família real britânica, Lennon provocou:

“Os que estão nos lugares mais baratos podem bater palmas. Os demais podem apenas sacudir suas joias.”

Irreverente, provocador e suficientemente jovem para fazer uma piada sobre classes sociais diante da realeza.

Mas há naquela frase, talvez involuntariamente, uma boa definição da arte.

Há pessoas nos assentos baratos.

Há pessoas nos camarotes.

Há gente de esquerda, de direita, do centro e das extremas.

Cada um chega ao teatro carregando suas convicções, seus preconceitos, suas certezas — e, eventualmente, suas joias.

Mas o artista que está no palco é o mesmo.

E a música também.

Talvez tenhamos esquecido justamente isso: não importa o preço do assento em que estamos sentados — nem de que lado do teatro escolhemos nos sentar (se girondinos, se jacobinos). A obra no palco continua sendo a mesma.

Podemos aplaudir.

Podemos não aplaudir.

Podemos descobrir que já não gostamos tanto dela depois de conhecer melhor quem a produziu.

Podemos discordar daquilo que ela diz.

O que talvez seja um desperdício é decidir, antes mesmo de as cortinas se abrirem, que não queremos vê-la.

Porque, nesse caso, já não estamos separando o artista da obra.

Estamos apenas escolhendo as obras que tenham potencial de concordar conosco.

E isso pode ser muita coisa.

Arte, provavelmente, é a menos interessante delas.

 

Em tempo: quero ver o que os fãs de Legião Urbana dirão quando descobrirem que Renato Russo votou em Roberto Freire (PCB) na eleição de 1989.

FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER

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