Vai começar a Oktoberfest. Não sei se é o sol errático dos últimos dias, mas parece – ou, obviamente, pode ser só impressão minha – que ainda não entramos no clima. Confesso que também não sentia que estávamos em clima de eleição (pelo menos até começar a apuração, às cinco da tarde do último domingo). E, projetando a memória alguns meses para trás, também não lembro de um grande clima de Copa do Mundo.
O que está acontecendo conosco?
A resposta mais fácil – por sinal, piada pronta – seria culpar o Super El Niño: o clima estaria acabando com o clima.
Mas tenho uma teoria menos meteorológica.
Antigamente, esperávamos o verão, a Copa do Mundo, as Olimpíadas, o domingo para ver o clipe novo no Fantástico, a segunda-feira para assistir a um filme na Tela Quente, a próxima capa da Playboy, o filme chegar na locadora, a revista nas bancas, as férias.
Assistíamos à televisão ao vivo e aguardávamos as propagandas (inclusive as eleitorais gratuitas antes de começar a novela). Hoje reclamamos do delay de cinco segundos da transmissão.
Tirávamos uma fotografia sem saber se alguém tinha piscado e esperávamos dias pela revelação. Hoje fazemos quinze fotos iguais, apagamos quatorze, aplicamos filtro na décima quinta e publicamos com a legenda “feliz no simples”.
E há o cliente que manda mensagem para o médico ou para o advogado ao meio-dia de domingo: “Doutor, estou mandando agora só para não esquecer.” Ele não pode esperar.
Hoje tudo é instantâneo: conversa, notícia, foto, filme, música, opinião, indignação. Principalmente indignação.
A tecnologia eliminou a espera. Somos bombardeados 24 horas por dia por guerras, crises, mudanças climáticas, inteligência artificial, eleições, reformas, o show do ano, o jogo da década, ou algum novo fim do mundo que precisa acontecer antes do final do mês.
É como viver numa praia de mar bravo, com água pela cintura, olhando para a próxima onda enquanto ainda tiramos água salgada do nariz depois do caixote.
Minha teoria — absolutamente sem rigor científico, como de praxe (confesso que escrevi “como sói acontecer” e apaguei [soberba tem limites!]) — é que justamente aquela espera ajudava a criar o clima.
A Copa não começava no apito inicial. Começava semanas antes, nas reportagens das três emissoras existentes na porta da Granja Comary e nas escalações discutidas na fila do elevador e nas mesas dos bares. O Natal começava quando surgiam os cantos das cigarras e apareciam os primeiros enfeites de Natal. Parece óbvio. Não é mais. Hoje o comércio coloca ovos de Páscoa nas prateleiras antes de terminar o Carnaval; mal retomamos a dignidade do abuso do chocolate, o Dia das Mães já ocupa as vitrines; o Dia dos Namorados atropela o das mães; depois vêm o Dia dos Pais, Dias das Crianças, o Halloween — antiga tradição de nossos bisavós açorianos, evidentemente — e, de repente, panetone em agosto.
Você ainda nem terminou de pagar as férias de julho e já tem um Papai Noel sorrindo para você no corredor do supermercado.
Não existe mais intervalo entre as datas. Uma comemoração não termina: é despejada pela seguinte. Se o Natal começa em agosto, quando chega dezembro ele já está exausto. Se os ovos de Páscoa aparecem quando ainda estamos tirando lantejoula do cabelo, a Páscoa deixa de ser algo que está chegando e vira apenas mais uma coisa que já começou sem nossa autorização.
Tenho uma piada (muito boa, por sinal) de minha autoria (modéstia às favas) em que afirmo que “o ano praticamente acabou: agora é Oktober, depois segundo turno, enchente e já é Natal”. Sim, reconheço o humor negro (aliás, é essa a ideia). Mas havia nela uma espécie de consolo: depois do Natal vinham as férias. E férias costumavam ser férias mesmo. Começavam em dezembro e terminavam na primeira semana de março (ou em maio, se você estudasse na UFSC). Hoje, para muita gente, férias são aquele período entre 22 de dezembro e 10 de janeiro em que você leva o notebook para outro lugar.
Vivemos permanentemente na antessala do próximo evento, sem nunca sair direito do anterior.
E fazemos isso com tudo.
Não terminamos uma eleição e já começamos a discutir a próxima.
Não voltamos das férias e já estamos olhando o calendário para descobrir o próximo feriado.
Talvez tenhamos transformado expectativa em ansiedade.
E ansiedade em planejamento.
Talvez não tenhamos perdido de vez o clima da Copa, da eleição, da Oktober ou do Natal. Talvez tenhamos perdido o espaço que existia antes de cada um desses eventos. Aquele período meio inútil em que nada estava acontecendo, mas alguma coisa estava para acontecer.
A espera.
O intervalo.
A expectativa.
Talvez fosse justamente isso que criava o clima.
Agora não dá mais tempo. Porque, para piorar minha velha piada – em todos os sentidos –, depois da Oktober, do segundo turno, da enchente e do Natal... vai começar a nova fase de implantação da reforma tributária.
Desculpa o climão.
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se