Aguarde, carregando...

Sexta-feira, 02 de Outubro 2026

Eleições 2026

AO VIVO
Apurado: 0%
Aguardando início da apuração oficial...
Colunas/Geral

DICIONÁRIO É COISA DE EXTREMISTA

Pequeno manual contemporâneo para vencer discussões sem precisar discutir

DICIONÁRIO É COISA DE EXTREMISTA
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Gosto de palavras versáteis.

Especialmente daquelas que a gente pode usar em qualquer discurso ou argumento e que, apesar de não dizerem muita coisa, costumam causar bastante impacto.

Daquelas que, tamanha a amplitude, o interlocutor pode interpretar como quiser, preferencialmente para acomodá-las no aconchego de suas próprias convicções.

“Consenso” é uma delas. A palavra pode significar ampla concordância entre especialistas; no uso argumentativo, às vezes significa “as pessoas que eu consultei concordam comigo”. Outra é “privilégio, que pode designar uma vantagem social concreta, mas também virou uma palavra suficientemente elástica para enquadrar quase qualquer situação em que alguém possua algo que outro não possui.

Mas a palavra-coringa que escolhi para hoje é “ressignificar”.

Antes de me debruçar sobre ela – ressignificando-a para ajustá-la aos dias de hoje –, preciso dizer que ainda estranho usar dois esses ou dois erres em palavras nas quais colocávamos hífen antes de a Reforma Ortográfica ressignificar a utilização dos hífens (da mesma forma, não me conformo com terem tirado o acento diferencial do “pára” [Nossa! Lendo “pára” com acento agudo, lembro da minha avó escrevendo “flôr” ou “agôsto]).

Voltemos ao “ressignificar”.

Não vou me socorrer do Aurélio* para trazer seu significado. Vou de lógica. Vou de ouvido.

Ressignificar, verbo transitivo direto, é atribuir um novo sentido; recontextualizar.

Recontextualizar... outra baita palavra versátil.

Pois bem.

Ressignificar significa propor uma reforma em determinado conceito.

Mudar a narrativa.

Acho a ressignificação de alguns termos bastante útil. Mudar “escravos” para “escravizados”, por exemplo, parece-me uma boa aplicação do método. Afinal, para começar, o status de escravo era uma imposição externa, não algo que partisse da essência do ser; além disso, era um estado – quiçá provisório –, de modo que a pessoa podia estar escravizada e deixar de sê-lo. Logo, não era. Estava.

Outras funções do verbo ressignificar são menos nobres, mas não menos úteis.

Ressignificar também pode significar simplesmente mudar a narrativa das coisas.

Fulano não furtou; ele tomou a coisa alheia para reequilibrar a desigualdade socioeconômica entre ele e a vítima. Aliás, talvez coubesse aqui ressignificar também a palavra “vítima”.

Eu não sou misógino; sou vítima de uma criação machista e estou em processo de desconstrução.

Perceba a maravilha do mecanismo. Você não precisa mudar o fato. Basta trocar o vocabulário que o acompanha. É uma espécie de reforma sem obra: muda-se a placa da fachada e inaugura-se novamente o prédio.

Algumas palavras vêm sendo especialmente ressignificadas, como “comunista” e “fascista”.

É a favor do fim da escala 6x1? Comunista!

Não importa que o sujeito não queira uma sociedade sem classes sociais, na qual os meios de produção sejam de propriedade coletiva, e não privada.

É contra banheiros unissex? Fascista!

Não importa que o sujeito não defenda um Estado autoritário e nacionalista, com forte concentração de poder e subordinação dos interesses individuais aos interesses da nação e do Estado.

Nesse estágio, aliás, já nem sei se estamos ressignificando palavras. Talvez estejamos apenas desistindo de seus significados.

“Comunista” passou a significar “pessoa à minha esquerda”. “Fascista”, “pessoa à minha direita”. “Democrático” é quem concorda comigo. “Antidemocrático”, quem discorda. “Discurso de ódio” é aquilo que eu não gosto de ouvir. E “liberdade de expressão” é o direito sagrado de dizer tudo aquilo que eu autorizaria você a dizer.

É uma evolução e tanto.

Durante séculos, desperdiçamos tempo consultando dicionários, estudando História, distinguindo conceitos e tentando compreender o que o outro queria dizer. Uma trabalheira. Agora basta escolher uma palavra suficientemente grave, colá-la na testa do adversário e voltar para casa com a agradável sensação de ter vencido o debate.

A vantagem é que o método dispensa argumentos. Se você é fascista, não preciso ouvi-lo. Se é comunista, também não. Se é antidemocrático, menos ainda. A palavra, que antes servia para definir uma ideia, passou a servir para evitar que tenhamos de discuti-la.

Talvez tenhamos finalmente descoberto a verdadeira utilidade de ressignificar: não mudar o significado das palavras, mas esvaziá-las até que caiba dentro delas qualquer coisa.

E, quando uma palavra passa a significar qualquer coisa, acontece algo curioso.

Ela não significa mais nada.

Mas rende uma discussão danada.

 

Em tempo: “Aurélio” é o nome de um dicionário famoso no final do século XX. Seu organizador é Aurélio Buarque de Holanda, primo de segundo grau de Chico Buarque, objeto da minha próxima crônica.

FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp Vale Europeu Notícias
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR