Gosto de palavras versáteis.
Especialmente daquelas que a gente pode usar em qualquer discurso ou argumento e que, apesar de não dizerem muita coisa, costumam causar bastante impacto.
Daquelas que, tamanha a amplitude, o interlocutor pode interpretar como quiser, preferencialmente para acomodá-las no aconchego de suas próprias convicções.
“Consenso” é uma delas. A palavra pode significar ampla concordância entre especialistas; no uso argumentativo, às vezes significa “as pessoas que eu consultei concordam comigo”. Outra é “privilégio, que pode designar uma vantagem social concreta, mas também virou uma palavra suficientemente elástica para enquadrar quase qualquer situação em que alguém possua algo que outro não possui.
Mas a palavra-coringa que escolhi para hoje é “ressignificar”.
Antes de me debruçar sobre ela – ressignificando-a para ajustá-la aos dias de hoje –, preciso dizer que ainda estranho usar dois esses ou dois erres em palavras nas quais colocávamos hífen antes de a Reforma Ortográfica ressignificar a utilização dos hífens (da mesma forma, não me conformo com terem tirado o acento diferencial do “pára” [Nossa! Lendo “pára” com acento agudo, lembro da minha avó escrevendo “flôr” ou “agôsto]).
Voltemos ao “ressignificar”.
Não vou me socorrer do Aurélio* para trazer seu significado. Vou de lógica. Vou de ouvido.
Ressignificar, verbo transitivo direto, é atribuir um novo sentido; recontextualizar.
Recontextualizar... outra baita palavra versátil.
Pois bem.
Ressignificar significa propor uma reforma em determinado conceito.
Mudar a narrativa.
Acho a ressignificação de alguns termos bastante útil. Mudar “escravos” para “escravizados”, por exemplo, parece-me uma boa aplicação do método. Afinal, para começar, o status de escravo era uma imposição externa, não algo que partisse da essência do ser; além disso, era um estado – quiçá provisório –, de modo que a pessoa podia estar escravizada e deixar de sê-lo. Logo, não era. Estava.
Outras funções do verbo ressignificar são menos nobres, mas não menos úteis.
Ressignificar também pode significar simplesmente mudar a narrativa das coisas.
Fulano não furtou; ele tomou a coisa alheia para reequilibrar a desigualdade socioeconômica entre ele e a vítima. Aliás, talvez coubesse aqui ressignificar também a palavra “vítima”.
Eu não sou misógino; sou vítima de uma criação machista e estou em processo de desconstrução.
Perceba a maravilha do mecanismo. Você não precisa mudar o fato. Basta trocar o vocabulário que o acompanha. É uma espécie de reforma sem obra: muda-se a placa da fachada e inaugura-se novamente o prédio.
Algumas palavras vêm sendo especialmente ressignificadas, como “comunista” e “fascista”.
É a favor do fim da escala 6x1? Comunista!
Não importa que o sujeito não queira uma sociedade sem classes sociais, na qual os meios de produção sejam de propriedade coletiva, e não privada.
É contra banheiros unissex? Fascista!
Não importa que o sujeito não defenda um Estado autoritário e nacionalista, com forte concentração de poder e subordinação dos interesses individuais aos interesses da nação e do Estado.
Nesse estágio, aliás, já nem sei se estamos ressignificando palavras. Talvez estejamos apenas desistindo de seus significados.
“Comunista” passou a significar “pessoa à minha esquerda”. “Fascista”, “pessoa à minha direita”. “Democrático” é quem concorda comigo. “Antidemocrático”, quem discorda. “Discurso de ódio” é aquilo que eu não gosto de ouvir. E “liberdade de expressão” é o direito sagrado de dizer tudo aquilo que eu autorizaria você a dizer.
É uma evolução e tanto.
Durante séculos, desperdiçamos tempo consultando dicionários, estudando História, distinguindo conceitos e tentando compreender o que o outro queria dizer. Uma trabalheira. Agora basta escolher uma palavra suficientemente grave, colá-la na testa do adversário e voltar para casa com a agradável sensação de ter vencido o debate.
A vantagem é que o método dispensa argumentos. Se você é fascista, não preciso ouvi-lo. Se é comunista, também não. Se é antidemocrático, menos ainda. A palavra, que antes servia para definir uma ideia, passou a servir para evitar que tenhamos de discuti-la.
Talvez tenhamos finalmente descoberto a verdadeira utilidade de ressignificar: não mudar o significado das palavras, mas esvaziá-las até que caiba dentro delas qualquer coisa.
E, quando uma palavra passa a significar qualquer coisa, acontece algo curioso.
Ela não significa mais nada.
Mas rende uma discussão danada.
Em tempo: “Aurélio” é o nome de um dicionário famoso no final do século XX. Seu organizador é Aurélio Buarque de Holanda, primo de segundo grau de Chico Buarque, objeto da minha próxima crônica.
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