Winston Churchill deixou uma maldição para o Ocidente quando disse que a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que já foram tentadas. A frase é genial — e perigosíssima — porque nos permitiu encerrar uma discussão que talvez jamais devesse ter sido encerrada. A democracia deixou de ser um sistema político, criado por homens e sujeito às mesmas gambiarras de qualquer invenção humana, e virou uma espécie de religião laica. Você pode questionar Deus, o capitalismo, o casamento e até se Friends era realmente tão engraçado assim. Mas experimente questionar a democracia para você ver o que acontece.
Em nome dela já se fizeram guerras, golpes, prisões, censuras, decisões judiciais teratológicas e outras delicadezas que, curiosamente, costumam parecer pouco democráticas. A explicação é simples: eram necessárias para defender a democracia. Aliás, trata-se de uma palavra extraordinariamente versátil.
Antes que alguém me pergunte se eu pretendo fechar o Congresso e/ou pedir a volta da ditadura, eu já aviso: não pretendo! Afinal, gosto da liberdade de escrever artigos questionando a democracia (virão outros!).
Minha dúvida é mais modesta: será que a democracia funciona tão bem assim?
A pergunta sequer é original.
Um senhor chamado Sócrates – não farei a piada com o craque corinthiano – já desconfiava dela há uns 2.400 anos. Como teve a deselegância de não deixar livros escritos, conhecemos suas ideias principalmente por Platão e Xenofonte - e há uma longa discussão sobre onde termina Sócrates e começa Platão. Deixo-a aos filósofos. Nós, brasileiros, já temos dificuldade suficiente para descobrir onde termina um partido e começa outro.
O que interessa aqui são três problemas que atravessam essa tradição socrático-platônica.
O primeiro é ofensivamente simples: governar exige conhecimento. Para pilotar um avião exigimos treinamento e horas de voo; para operar uma vesícula, faculdade e residência; para instalar o gás do condomínio, queremos alguém certificado, porque ninguém pretende explodir democraticamente depois do jantar. Mas, para administrar bilhões de reais e decidir sobre saúde, segurança, educação e economia, o requisito fundamental é ganhar uma eleição. Na metáfora platônica do navio, ninguém entregaria o leme ao passageiro mais popular: procuraria quem soubesse navegar. Na política fazemos diferente. Entregamos o navio ao passageiro mais carismático e depois ficamos genuinamente surpresos quando ele pergunta onde fica o freio.
O segundo problema é ainda mais inconveniente: a maioria não necessariamente sabe o que é melhor. Passamos a confundir legitimidade com acerto. Se 51% dos passageiros de um avião decidirem, em votação livre, secreta e auditável, desligar o motor esquerdo porque está fazendo barulho, teremos uma decisão impecavelmente democrática e um considerável problema aeronáutico. A maioria responde a uma pergunta fundamental (quem decide?), mas não responde a outra (a decisão está certa?) Cinquenta milhões de votos conferem poder a alguém; não lhe concedem, junto com o diploma eleitoral, conhecimentos instantâneos de economia, medicina, engenharia e educação.
O terceiro problema talvez seja o mais atual: a democracia pode selecionar não quem sabe governar, mas quem sabe convencer os outros de que sabe. Sócrates parece ter previsto o Instagram, o TikTok e o Duda Mendonça. O sujeito não precisa compreender economia; precisa explicá-la em trinta segundos. Não precisa conhecer segurança pública; precisa encontrar uma frase que caiba num reel. Não precisa resolver um problema complexo; precisa encontrar um culpado simples. O demagogo é justamente isso: alguém especializado não necessariamente em resolver os problemas do povo, mas em descobrir quais palavras fazem o povo acreditar que ele os resolverá.
Abro um breve parêntese: a palavra "demagogia" significa, em grego, "aquele que conduz o povo". Aristóteles passou a usar o termo para descrever a degeneração da democracia: o líder passou a agradar as massas com promessas falsas, mentiras e apelos emocionais, cujo objetivo – vejam vocês! – passou a ser apenas a conquista ou a manutenção do poder próprio. Fecha parêntese.
Pois bem.
Até então, vínhamos falando da democracia ateniense.
Falemos, agora, da democracia em Pindorama. Aqui, fizemos o que costumamos fazer com invenções estrangeiras: acrescentamos burocracia, dinheiro público e uma regulamentação que poucos entendem. Cá, na falta de um Aristóteles para nos orientar, fomos desenvolvendo um sistema democrático degenerado que oferece vantagens consideráveis a quem já está dentro dele.
Exemplifico.
No Fundo Eleitoral de 2026, apenas 2% foram distribuídos igualmente entre os partidos; os demais 98% seguem critérios ligados a votos e representação parlamentar. Já no Fundo Partidário 95% da parcela distribuída por votos também obedecem ao desempenho eleitoral. Some-se cláusula de desempenho, mandato, estrutura partidária, exposição pública e propaganda. Tudo tem justificativa técnica, naturalmente. O resultado, porém, é curioso: quem tem mais recebe mais para continuar tendo mais. É uma corrida em que o prêmio por vencer é largar alguns metros à frente na próxima.
Abro um segundo parêntese. Sim, amigos, temos dois fundos que distribuem dinheiro as partidos políticos: o Fundo Partidário, destinado à manutenção administrativa dos partidos políticos (como pagamento de funcionários, contas de água, luz e aluguel de sedes), e que foi de R$ 1,43 bilhão em 2026; e também o Fundo Eleitoral, valor destinado a custear as campanhas eleitorais, que em 2026 foi de R$ 4,96 bilhões. A democracia custa caro! Fecha parêntese.
Voltemos.
Depois de distribuir o dinheiro, como visto, a quem já está dentro do jogo, convidamos o outsider: “Seja bem-vindo à democracia! Aqui está a pista. Seus adversários têm mandato, estrutura, assessores, exposição e muito mais recursos. Você tem um perfil no Instagram e muita vontade de mudar o Brasil. Boa sorte!”
Ou seja, a festa da democracia não gosta de penetras. E se conseguiu entrar, tem que dançar conforme a música para não ser expulso.
Esse é só um exemplo de como a nossa democracia funciona.
Querem outros? Nossa democracia criou outras ferramentas interessantes, como quocientes eleitorais, suplências, federações, cláusulas, exceções e fórmulas que exigem do eleitor conhecimentos simultâneos de Direito Constitucional, álgebra e cabala. O suplente de senador, por exemplo, pode chegar ao Senado sem que o eleitor tenha propriamente decidido colocá-lo lá. É uma façanha democrática interessante: o povo exerce soberanamente sua vontade e às vezes só depois descobre qual era.
Talvez Churchill continue certo e a democracia ainda seja o melhor sistema que encontramos. Mas existe uma diferença gigantesca entre dizer “é o melhor que encontramos até agora” e dizer “é o melhor sistema possível e não pode ser questionado”. Uma multidão pode errar; um eleito pode ser incompetente; um excelente comunicador pode ser um péssimo administrador; e um sistema democrático pode desenvolver mecanismos de autopreservação que dificultem justamente a renovação que promete.
Talvez o maior problema da democracia seja justamente termos aprendido a defendê-la sobretudo quando ela produz o resultado que desejamos. Quando não produz, nossa vocação democrática costuma sofrer uma súbita crise de princípios (tem um monte de gente já preparando o discurso). Millôr Fernandes resumiu essa contradição com muito mais competência do que eu:
“Democracia é quando eu mando em você; ditadura é quando você manda em mim.”
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